Criação das Redes Sindicais

Grupo de participantes no último dia do Seminário de Balanço das Redes Sindicais

A Central Única dos Trabalhadores foi uma das entidades sindicais pioneiras a levar em conta a importância de organizar redes de trabalhadores em empresas multinacionais. Essa estratégia ganhou corpo em 2001 com o projeto Ação Frente às Multinacionais, conhecido como CUTMulti que foi uma parceria entre a CUT e a FNV da Holanda coordenado pela Secretaria de Relações Internacionais da CUT e em parceria com o Observatório Social, o DIEESE, pelas Confederações dos Ramos e pelas próprias redes de trabalhadores. Essa iniciativa se consolidou rapidamente diante da necessidade de resposta das organizações representativas dos trabalhadores aos impactos perversos da globalização sobre o mundo do trabalho. 

A partir de 2011 o trabalho de organização das redes de trabalhadores continuou a ser desenvolvido pela CUT, Observatório Social, CNMCUT e CNQ-CUT através do projeto Promoção de Direitos Trabalhistas na América Latina agora com o apoio da DGB Bildungswerk da Alemanha. Esse projeto está voltado para a organização de 11 empresas alemãs do setor metalúrgico e químico com o objetivo de consolidar o diálogo social entre as empresas e as suas respectivas redes de trabalhadores. 

O Instituto Observatório Social também foi uma das primeiras instituições de pesquisa a acompanhar o movimento das redes. De acordo com Hélio da Costa, coordenador do Programa de Responsabilidade Social Empresarial do IOS e um dos responsáveis pelo programa de formação para as redes, “a instituição tem uma longa experiência no tema principalmente na área de pesquisa, acompanhando o desenvolvimento de redes (desde as mais antigas como a BASF e a Bayer) e de certa forma foi subsidiando as redes em relação ao mapeamento de suas plantas, na construção do perfil das empresas e também a prática destas empresas em relação a questões sociotrabalhistas”.

Ele também conta que o Observatório já fez alguns vídeos em relação à experiência de redes, agora está envolvido nas pesquisas e com o programa de formação para os trabalhadores e dirigentes das redes sindicais. “O trabalhador sofre impacto sobre as decisões administrativas que as empresas tomam na sua matriz e o papel do sindicato é defender os inte-resses dos trabalhadores para que essas decisões não os prejudiquem.

A central Sindical como organização com maior maior abrangência organizativa tem que estar preocupada com isso tentando achar soluções para essas demandas”, explica Ricardo Jacques, membro da direção da Contraf e assessor da secretaria de Relações Internacionais da CUT. Por isso “a CUT como uma central sindical de vanguarda da organização dos trabalhadores não poderia deixar de ter uma visão clara sobre a importância da inserção de um trabalhador em uma empresa multinacional sabendo que ele sofre impacto de gestão admi-nistrativa da empresa que não tem a tomada de decisões somente naquela unidade de trabalho”,destaca Jacques.

 “Os sindicatos locais atuando em rede se fortalecem, ampliam suas informações e enriquecem o planejamento sindical de curto, médio e de longo prazo, seja para igualar direitos e salários num determinado país, seja para monitorar e exigir o cumprimenpara a promoção do Trabalho Decente”, explica Fábio Lins, secretário de relações internacionais da CNQ. 

Já Valter Bittencourt, assessor da CNM, explica que uma empresa muitas vezes tem mais de uma planta e promove um tipo de benefício em um lugar e outro, não. Ao mesmo tempo em que existem diferenças salariais, perseguição a dirigentes e outros problemas. “O fato de você ter uma rede, você consegue trocar informações, consegue saber o que está acontecendo em todos os locais e num outro momento consegue nivelar as condições dos trabalhadores. Quando você trabalha em rede, não dá chance de a empresa agir em segredo prejudicando os trabalhadores”, conclui Bittencourt. 

O projeto Promoção de Direitos na América Latina vai até 2014 e durante esse ano de 2013 mais atividades de formação serão desenvolvidas para atingir o público das redes.

Seminário de Balanço das Redes Sindicais

Entre os dias 12 e 13 de novembro de 2012 foi realizado o seminário de balanço e pers-pectivas dando seqüência às atividades do projeto da CUT, IOS e DGB Bildungswerk - Promoção de Direitos Trabalhistas na América Latina voltado para as redes sindicais do Ramo Químico e Metalúrgico, com o objetivo de promover o Diálogo Social entre as redes de Trabalhadores e as Empresas envolvidas no projeto. 

João Felício, Secretário de Relações Internacionais da CUT esteve presente na abertura do evento e destacou a importância da ação da Confederação Sindical Internacional CSI frente às multinacionais para cumprimentos dos direitos humanos e respeitos aos tratados internacionais sobre meio ambiente e trabalho. João Felício chamou atenção para o fato de que 85% dos trabalhadores de todo o mundo não são sindicalizados o que se constitui um grande desafio para o

Destacou também a importância da estratégia internacional da CUT através do Projeto CUTMulti que permitiu uma maior aproximação entre os ramos e a CUT e que essa experiência precisa ser aprimorada cada vez mais, porque é uma experiência que se mostrou extremamente exitosa. Após a abertura, foi debatido algumas experiências dos ramos em relação a formação de redes de trabalhadores. Destacamos logo a seguir um resumo dos relatos dos representantes do ramos químico; metalúrgico; cormércios e serviços e financeiro.

Representante da CUT – Ricardo Jacques – Dirigente da Contraf- CUT e Assessor da SRI-CUT.

Ricardo Jacques destacou a importância da resposta dos trabalhadores à concentração de poder por parte das multinacionais no processo de globalização num patamar de articulação internacional mais avançado. Nesse sentido são importantes as ações que a CUT vem fazendo junto aos sindicatos globais e com a CSA, coordenadora no âmbito da América Latina.

 Jacques salientou a importância das Redes para quebrar os muros que dividem as centrais e impede ações conjuntas e citou a resolução da CUT sobre as redes que tem um papel de potencializar o trabalho dos ramos com os sindicatos globais e exigir o cumprimento dos tratados internacionais sobre direitos humanos que incluem direitos trabalhistas e de organização sindical.

Representante do Ramo Químico- Fábio Lins – Secretário de Relações Internacionais da CNQ-CUT

Fábio Lins começou falando das redes mais antigas do ramo químico que tem uma experiência positiva na organização dos trabalhadores como a Basf; a Bayer; a Akzo Nobel e a Lanxess. Chamou atenção para a importância de se construir redes em empresas multinacionais brasileiras como a Petrobrás e Vale do Rio Doce a partir da matriz brasileira. Fábio destacou também o potencial das redes para ultrapassar os limites da estrutura sindical brasileira na medida em que podem articular a organização sindical no local de trabalho, no âmbito regional e nacional. E por fim, Fábio falou da dificuldade que as Confederações em geral têm para acompanhar todas as redes, nesse sentido é importante o envolvimento dos sindicatos e da construção da autonomia das redes.

Representante do Ramo Metalúrgico – João Cayres - Secretário Geral da CNM-CUT

João Cayres mencionou a experiência de intercâmbio com trabalhadores da Ford da Rússia que culminou com a elevação salarial significativa dos trabalhadores da empresa naquele país e também mencionou o acordo internacional com a UAW. João salientou a importância das Redes para qualificar o processo de negociação coletiva e fortalecer a organização sindical do local de trabalho ao âmbito internacional e mencionou como desafios: a ampliação do número de redes; o financiamento das redes; construção da autonomia das redes e iniciar processo de negociação para que as empresas multinacionais brasileiras assinem acordo marco-global.

 Representante do Ramo Comércio e Serviço. Lucilene Binsfeld - Secretária de Relações Internacionais da CONTRACS

Lucilene falou das redes que estão organizadas (em diferentes níveis) no ramo do comércio e serviço como a Rede da Walmart; Carrefour; C&A; Accor (maior cadeia hoteleira do Brasil). Destacou os avanços na Rede Walmart com o encontro em Los Angeles– Rede Aliança Global Walmart campanha de sindicalização da Walmart com todas as centrais sindicais. Falou dos avanços na Rede C&A que abriu espaço para o diálogo social possibilitando avanços na PLR, na organização no local de trabalho e nas condições de trabalho. Lucilene também falou da preocupação em organizar o setor hoteleiro, de bares e restaurantes que será um setor bastante afetado nos grandes eventos como a Copa e a Olimpíada.

Representante do Ramo Financeiro – Ademir Wiederkehr – Secretário de Imprensa da CONTRAF-CUT

Ademir destacou inicialmente a conquista da Convenção Coletiva Nacional dos bancários desde 1992, cujo pontapé inicial se deu com a unificação da data-base da categoria que ocorreu em 1º de setembro. A convenção permite acordos aditivos por banco desde que esses acordos melhorem as condições estabelecidas na Convenção Nacional. Nesse sentido a discussão sobre redes não tiveram tanta relevância no setor até a internacionalização das agências do banco do Brasil e Itaú e a entrada de bancos estrangeiros de grande porte no país como o Santander e o HSBC. A partir de então várias ações tem sido desenvolvidas visando organizar redes sindicais de bancos internacionais. A rede do Banco do Brasil já conquistou um Acordo- Marco Internacional (AMI). Ademir mencionou a participação da Contraf nas reuniões de redes sindicais de bancos internacionais organizados pela UNI que é o sindicato global do setor financeiro e que também lidera a campanha internacional pela regulação do setor financeiro.

Confira o resultado da avaliação externa do curso de formação feita pelo Instituto Paulo Freire

Durante o ano de 2012 a Central Única dos Trabalhadores (CUT), em parceria com o Instituto Observatório Social (IOS), ofereceu um curso de formação para as Redes dos Ramos Metalúrgico e Químico. O curso é uma das ações planejadas no projeto Promoção de Direitos Trabalhistas na América Latina, com duração prevista de três anos. 

Foi necessário contratar uma instituição ligada à educação para fazer uma avaliação externa, como exigência do projeto. Os participantes avaliaram positivamente a metodologia, dinâmica do curso e conteúdo das palestras. O único objetivo que não foi alcançado foi a incorporação de mulheres e jovens no curso, mas isso é algo que depende menos do curso e mais de uma organização dos sindicatos e de todos os atores envolvidos. 

O levantamento externo realizado pelo Instituto Paulo Freire sobre a percepção dos participantes do curso quanto ao aproveitamento do mesmo para os objetivos do projeto detectou que a experiência deste público em redes de trabalhadores precisa avançar, uma vez que 14,3% afirmaram nunca terem participado de redes e 45,7% participam
há menos de um ano. E apesar de 63% dos dirigentes afirmarem que são sempre liberados para realizar atividades sindicais, 48,6% avaliou como regular a abertura das empresas para a criação e fortalecimento de Redes. 

Essa avaliação “é importante porque você consegue quantificar e clarificar os pontos positivos e negativos e pensar num cenário futuro onde você possa errar menos . É um olhar externo que está observando o desenvolvimento do nosso trabalho e que a gente estando dentro muitas vezes não consegue enxergar”, comenta Ricardo Jacques, assessor da secretaria de relações internacionais da CUT. 

Dentro da análise 68,6% dos convidados deu nota máxima para a metodologia utilizada nas formações. 60,9% dos participantes também avaliaram como eficaz a apropriação das concepções sobre o tema. O grupo foi composto de homens em sua maioria (91%), com idade média de 46 anos, sendo 23 anos a idade mínima, e 65 a máxima. Apenas 9% do público foi composto por mulheres, isso constata que o único objetivo proposto e não alcançado pelo curso foi o de incentivar e fortalecer a participação de jovens e mulheres nas Redes de Trabalhadores.

Quadro das Redes após as atividades do projeto “Promoção dos Direitos Trabalhistas na América Latina

Após seis meses de dedicação da CUT, IOS, CNM e CNQ na escolha dos temas dos cursos, dos convidados, na motivação dos trabalhadores e dirigentes que participaram e com o último módulo de Formação para as Redes dos Ramos Metalúrgico e Químico realizado, é chegado o momento de fazer um balanço do trabalho realizado com as redes e ter perspectivas para esse ano.

 Algumas redes conseguiram fazer os seus encontros e de certa forma avançar o grau de organização, outras conseguiram publicar seus boletins, tornar mais visível suas iniciativas dentro de suas bases, conseguiram fazer encontros com as empresas abrindo um canal de comunicação com a gerência da empresa e de certa forma criar as condições para a construção de uma prática de diálogo social, conta Hélio da Costa, coordenador do programa de responsabilidade social do IOS e responsável pela formação.

 “Esse ano [2012] continuou avançando, mas a gente ainda tem muito que avançar porque são duas frentes: organizar os trabalhadores de um lado e de outro pressionar o empresário a reconhecer essas redes e aceitar negociar com respeito e com vontade de solucionar os problemas”, afirma Ricardo Jacques.

 Em alguns casos, permanece a dificuldade de falar e conseguir um real compromisso das empresas de reconhecer o papel das redes. Outro problema é entre alguns sindicatos que estão envolvidos na base de algumas empresas e redes e que têm certa resistência em priorizar as redes. “Muitas vezes as empresas não aceitam dialogar com os traba-lhadores e alguns sindicatos ainda têm um pouco de resistência, mas a rede não substitui o sindicato, a rede trabalha paralela ao sindicato, ajudando a resolver alguns problemas”, diz Valter Bittencourt. 

Para Fábio Lins mais uma vez as conquistas foram maiores nas empresas onde já existe um Sistema democrático nas Relações de Trabalho e a ação sindical internacional só é representativa se estiver enraizada a partir do local de trabalho. “Ainda encontramos sindicatos com certa resistência em criar uma rede sindical. Seja por não priorizar o tema, seja por receio de perder poder. É preciso sensibilizá-los de que se trata de uma rede de solida-riedade, ou seja, o princípio do sindicalismo”, conclui. 

Outra dificuldade foi à crise financeira na Europa que segundo Ricardo, diminuiu recursos de projetos de cooperação internacional e que contribui nesse processo de fortalecimento das redes. “Isso gera a falta de recursos, mas isso não impede a vontade de continuar correndo atrás do objetivo”, finaliza. Para 2013 será formado um novo grupo que passará pelo processo de formação para capacitação de novos membros junto às redes envolvidas no projeto. Também será dado continuidade aos encontros com os sindicatos e plantas que ainda não fazem parte das redes expandindo o diálogo social com os sindicatos dos trabalhadores e com as gerencias das empresas. Avançar incorporando o maiornúmero possível de plantas à formação das redes e a realização de encontros nacionais e se possível internacionais são aspirações do projeto, conforme assinala José Drummond, assessor da SRI-CUT.

Crédito da Foto: 
Divulgação/IOS
Data e hora: 
01/12/2012 15:45 2012