Curso de Formação em Redes reúne trabalhadores e dirigentes em São Bernardo

 Roni Barbosa (IOS), Paulo Cayres (CNM) e Fábio Lins(CNQ)

Abertura do Segundo Módulo de Formação 2013, da esquerda para a direita: Roni Barbosa (IOS), Paulo Cayres (CNM) e Fábio Lins(CNQ)

O segundo módulo da edição 2013 do curso de Formação para Trabalhadores dos Ramos Metalúrgico e Químico foi realizado nos dias 17 e 18 de abril na sede da CNM, em São Bernardo. A abertura do evento foi feita pelo presidente da confederação, Paulo Cayres, pelo secretário de relações internacionais da CNQ, Fábio Lins, e pelo presidente do Instituto Observatório Social, Roni Barbosa.

“No mundo todo o desemprego ainda está aumentando. Essa semana eu li uma notícia sobre quinhentos mil trabalhadores da indústria italiana que estão em casa. E lá fora todo mundo quer saber o que está acontecendo no Brasil. Quando olhamos para o Brasil, vemos que a distribuição de renda ainda é um desafio e a maneira de equilibrar isso é o trabalho, valorizando o trabalho”, defendeu Roni Barbosa.

Alexandre Bento, assessor da Secretaria de Relações Internacionais da CUT e novo coordenador do projeto CUT/IOS/DGB, no lugar de José Drummond, explicou como esses módulos de formação são importantes para construir as ferramentas necessárias para dialogar, trocar experiências e construir melhores condições para construir as redes sindicais, com mais elementos políticos, com mais informação e principalmente com mais ânimo. . “A meta da empresa é produzir mais em um tempo menor. O nosso desafio é conseguir garantir as nossas condições através do trabalho. E o IOS é um parceiro importante sem o qual não teríamos condições de avançar tanto”, explicou.

O objetivo do Projeto é destacar a importância da união dos trabalhadores nas redes sindicais e capacitar o movimento sindical na era da globalização. “Os sindicatos brasileiros enfrentam grandes dificuldades na estrutura sindical e conhecer as normas da Organização Internacional do Trabalho e de empresas ajuda a atuação dos sindicatos”, comenta Fábio Lins, secretário de Relações Internacionais da CNQ/CUT.

O presidente da CNM/CUT, Paulo Cayres, destacou a experiência da Confederação no fortalecimento de redes sindicais e disse que essas estruturas são fundamentais para a categoria, neste momento em que a luta pelo Contrato Coletivo Nacional de Trabalho ganha destaque. “Com as redes, nossa luta contra os acidentes e por melhores condições de trabalho em todas as unidades de uma mesma empresa ganha muito mais força. E os trabalhadores podem garantir direitos comuns, ou seja, o que pretendemos com o Contrato Coletivo”, assinala o presidente da CNM/CUT, ressaltando ainda: “O Projeto com a DGB também vai de encontro aos objetivos do macrossetor da indústria da CUT, permitindo a ampliação do diálogo e da solidariedade entre os trabalhadores de diferentes segmentos, que são fundamentais para a nossa classe”.

O primeiro dia foi marcado por uma discussão com forte participação dos trabalhadores sobre a estrutura sindical, o papel do sindicato na organização das redes, como funcionam os sindicatos, federações, confederações e as centrais sindicais, além de temas polêmicos como o Congresso de Fundação da Industriall e o mercado chinês.

Por fim, a partir das questões trabalhadas anteriormente, foi feita uma análise histórica da montagem e funcionamento da estrutura sindical brasileira, pelo pesquisador do IOS, Hélio da Costa.

Mesa de Exposição e Debate

No dia 18 de abril, foi dada continuidade a segunda etapa do curso de formação para os trabalhadores dos Ramos Metalúrgico e Químico em 2013. Durante a manhã houve uma mesa de exposição e debate, composta por João Cayres, Secretário Geral e de Relações Internacionais da CNM e Maria Ferreira, da direção-CNM; Fábio Lins, Secretário de Relações Internacionais da CNQ e Rosemeire Theodoro (CNQ), mediada por José Drummond.

Em sua exposição, Maria Ferreira informou que a rede ZF, da qual faz parte, existe desde 2008, bem como sua formação contou com apoio do IG Metall, mencionou que não se conheciam as localizações da ZF no Brasil, que é da unidade de MG. “Antes da formação da rede mapearam-se as unidades, questões de saúde do traba-lhador, com a rede sindical passaram a ter atenção da empresa, mulheres tinham problemas para ascensão, mas com a rede sindical a adversidade foi minimizada, trabalhadores administrativos e de chão de fábrica também passaram a ter tratamento igual com advento da rede”, disse.

Segundo Maria, não havia liberdade sindical: trabalhadores eram proibidos de falar com representantes sindicais, ainda há poucas mulheres na rede, embora elas estejam cres-cendo em termos de contratação. Maria vem trazendo essa discussão junto à rede e à direção da CNM sobre a participação de mais mulheres na rede e vem sendo discutido na empresa a implementação do AMI. “A Confederação ajudou no trabalho internacional e na organização nacional, conforme dados trazidos pela Maria, outro dado foi o progressivo avanço das mulheres; porém, há pouca participação das mulheres ainda”, destacou Drummond.

Rosemeire Theodoro abordou a temática de gênero “Se faz necessário adotar políticas para chamamento para a participação das mulheres nos sindicatos e nas redes sindicais”. Lembrou a todos a resolução aprovada no 11º Congresso Nacional da Centra Única dos Trabalhadores (CONCUT) sobre a paridade nos cargos de direção.

III Módulo de  Formação
Na tarde de 15 de maio foi realizada a terceira etapa do curso de formação para os trabalhadores dos Ramos Metalúrgico e Químico em São Paulo. O objetivo do módulo foi debater e analisar a “Responsabilidade Social e o Diálogo Social”, dois temas que estão cada vez mais disseminados pelas empresas e que exigem uma análise mais aprofundada por parte das organizações que representam os trabalhadores.

João Antonio Moraes, coordenador geral da Federação Única dos Petroleiros (FUP) destacou que a Petrobrás foi o principal ator no debate da norma ISO 26000 no Brasil. De acordo com Moraes “foi a Petrobras que acompanhou toda essa questão, patrocinou e esteve à frente desse debate. Quando a federação tomou conhecimento procurou um espaço para participar do debate e incluir a questão do trabalho”.

Na negociação coletiva de 2011 a FUP conseguiu inserir algumas cláusulas que fazem parte da Responsabilidade Social. “Fizemos sete seminários locais para socializar o que previa a norma e onde poderíamos atuar. Nosso acordo coletivo prevê que a companhia se compromete a praticar e adotar os princípios da ISO 26000 (temas centrais: direitos humanos, práticas trabalhistas, meio ambiente, práticas leais de operação, questões relativas ao consumidor)”, explicou Moraes.

A indústria do petróleo é bastante delicada se tratando dos temas de saúde e segurança. Moraes, conta que praticamente ocorre uma morte por mês no setor petrolífero. “Normalmente esses acidentes que levam a vida dos trabalhadores também colocam em risco o meio ambiente e a comunidade”.

Na madrugada do dia 15 de março de 2001, um grande estrondo acordou os trabalhadores da plataforma P-36, no campo de Roncador, na Bacia de Campos. Toda a plataforma tremeu e foi acionada a brigada de incêndio. Minutos depois, houve uma nova explosão e um grupo da brigada foi até a coluna, onde encontraram morte e destruição. O abandono da plataforma começou três horas após a primeira explosão. Cinco dias depois, a P-36 afundou a 1350 metros levando os corpos de trabalhadores mortos. “A questão ambiental está no cerne da discussão mundial e no acidente [P-36] a mídia deu mais atenção aos animais sujos de óleo do que aos trabalhadores mortos”, afirmou João Antonio.

Segundo o coordenador, a FUP conseguiu acertar 150 embarques para plataformas para acompanhar os trabalhos anualmente, antes não havia nenhum. “Temos que cobrar da empresa que faz todo investimento nesse debate e no dia a dia não pratica. Principalmente essa questão da saúde e segurança nós temos batido muito nas empresas, inclusive na Petrobras”, disse.

Em 1995, Fernando Henrique Cardoso, quebra o monopólio do petróleo exercido pela Petrobras, mas mantém no controle do Estado. “A partir daí, a União através dos leilões permite que as empresas que ganham o leilão explorem e a partir daquele momento o petróleo é nosso”, contou Moraes.

“Estamos numa fase ainda de passar o conhecimento da norma e os espaços possíveis de atuação para a militância sindical. A norma em si não obriga a empresa a cumprir, mas quando a gente joga isso pra dentro do acordo coletivo, isso passa a ter outro peso”, esclarece Moraes. O desafio maior, segundo ele, é conseguir ampliar para outras empresas onde as condições de trabalho são inferiores.

Na terça-feira (14) de maio, foi feita a 11ª rodada de licitações de petróleo e gás da Agência Nacional de Petróleo (ANP), que teve uma arrecadação recorde de R$ 2,7 bilhões ao negociar 289 blocos em cinco bacias. “Com a realização desse leilão a Petrobras ficou como minoritária. O cenário é de avanço da precarização. E não nos faltam motivos para resistir e questionar esses leilões porque precarizam as condições de trabalho.”, assegura Moraes.

A ISO 26000: “trata de várias questões, meio ambiente, comunidade, e às vezes parece que só com ela se resolve todos os problemas do trabalho ao meio ambiente, ao consumo sustentável e consciente. Muitas empresas argumentam que ela é muito ampla, mas talvez seja o caso de pensar a responsabilidade social como uma oportunidade e que tipo de oportunidade ela pode representar para os sindicatos e para as redes”, conclui Hélio da Costa, do Instituto Observatório Social.

Perspectiva da criação de Rede dos Trabalhadores da Petrobras

A Petrobras é signatária do Global Compact (Pacto Global), através das discussões da ICEM no âmbito da Organização das Nações Unidas. No Brasil, através da Federação Única dos Petroleiros (FUP), foi possível fazer um acordo global de princípios da empresa. “Após a elaboração deste acordo com a ICEM, nós pudemos utilizá-lo para pressionar a empresa, que nesse ano deu um sinal positivo em aceitar a rede. Hoje, a Petrobras atua em mais de 30 países”, conta João Antonio Moraes, coordenador geral da Federação Única dos Petroleiros (FUP).

Por conta das dificuldades recentes, a multinacional vem reduzindo a sua atuação mundial para a América Latina, mantendo uma presença importante na América do Sul, mas também em países da África. Ainda segundo o dirigente, a FUP está empenhada juntamente com a Central Única dos Trabalhadores (CUT) a pressionar a Petrobras para não ter em outros países o que as multinacionais têm no Brasil, condições de trabalho bastante inferiores aos seus países de origem.

Organização de Comissão de Fábrica na Mercedes- Benz
Wagner Freitas, membro do CSE da Mercedez- Benz, contou que a Mercedes foi a última empresa a negociar a comissão de fábrica, houve muita perseguição e descontos de salários. “O modelo de organização de comissão de fábrica da Mercedes segue o modelo alemão. Contamos, na época, muito com a solidariedade da Alemanha”, afirma.

“Nos anos 90, com a intensificação da reestruturação produtiva, tínhamos a opção de deixar a empresa fazer para ver o que acontecia e aí “meter o pé” e não deixá-la fazer nada ou então negociar. E nesse momento foi crucial negociar a reestruturação podutiva com a empresa para minimizar os impactos na mão de obra e na precarização do trabalho. É importante destacar, que isso só foi possível também, porque estávamos organizados dentro da fábrica”, conta.

Segundo Wagner, a convivência com a Alemanha foi importante porque conseguiram que as áreas fossem reestruturadas, garantiram que os trabalhadores fossem readequados no local de trabalho e capacitados quando necessário.

“Nesse momento lançamos uma cartilha que a gente fez, pedíamos a garantia dos benefícios sociais, melhoria nas condições de trabalho, redução de jornada, incentivo a educação e formação profissional, reestruturação de cargos e salário, negociação dosprocessos de reestruturação produtiva, PLR, metas de produção, investimentos e empregos, e democracia no local

Em 2012, foram solucionados conflitos em demissões, discriminação e até reintegração de empregado demitido. E também uma máquina foi interditada por desrespeito ao código de responsabilidade social. Hoje os trabalhadores e trabalhadoras praticam uma meta de produção. “O cara tem que produzir cem caminhões, se terminar mais cedo, ele fica liberado”, disse Wagner. De acordo com ele, as experiências internacionais que o sindicato dos Metalúrgicos do ABC construiu ao longo dos anos contribuiu para o aprimoramento da democracia e o respeito que o trabalhador conquistou no “chão de fábrica”.

No dia 16 de março, dando sequência as atividades da terceira etapa do curso de formação para os trabalhadores dos Ramos Metalúrgico e Químico, os representantes das Redes apresentaram condições gerais para o diálogo social e princípios a serem observados pelos grupos.

De acordo com os trabalhadores, a conscientização dos sindicatos com relação à implantação das redes é um aspecto positivo para a existência do diálogo. É preciso ter compromisso ético e moral com a organização sindical e a empresa, superar as diferen ças ideológicas e ter disposição para consolidar o diálogo social.

Em alguns casos a empresa tem que deixar de pensar nos interesses próprios e pensar no coletivo, portanto existe a necessidade de reconhecimento da empresa com a rede. Para eles, é necessário também o envolvimento dos trabalhadores no conhecimento de implementação das redes.Assim como criar interesse por parte das empresas, em honrar seus compromissos assumidos com os trabalhadores (direitos conquistados que tiverem ameaçados, solucionar os problemas junto à empresa, sem pre- juízo para os trabalhadores).

Hélio da Costa, do IOS, contou que há vinte e cinco anos atrás não era discutido o diálogo e a responsabilidade social, em cursos de formação, mas esses temas foram sendo agregados.

“Para muitos isso seria um retrocesso. O movimento sindical deixaria de fazer luta para ficar só no diálogo, na negociação. Não há contradição entre diálogo social e luta. O diálogo social é uma conquista, nós estamos discutindo porque avançamos, mas estamos longe de um patamar como gostaríamos”, disse. Segundo Hélio, de qualquer forma, o fato de o diálogo social estar sendo discutido, mostra o avanço na organização.

Data e hora: 
01/06/2013 16:45 2013