O que tem no seu café?

“Quando você compra um saco de café no supermercado, está correndo o risco de levar pra casa os grãos colhidos por trabalhadores sem água limpa para beber e vivendo em condições precárias ou trabalhadores que estão presos por uma dívida que os impedem de deixar a plantação.” Este é um dos trechos do estudo “Café amargo”, lançado na última semana pela ONG dinamarquesa Danwatch. O relatório, que conta com a participação do Instituto Observatório Social, revela condições de trabalho degradantes e análogas à escravidão, trabalho infantil e uso de agrotóxicos proibidos na Europa em lavouras de café brasileiras, em especial de Minas Gerais e Espírito Santo.

O relatório monitorou alguns elos das cadeias produtivas de café das multinacionais Nestlé e Jacobs Douwe Egberts. Juntas, as multinacionais controlam aproximadamente 40% das vendas mundiais do produto. De acordo com dados apresentados pela Danwatch, a estimativa é que ao menos metade dos trabalhadores ocupados nas plantações de café não possuem contrato e são mantidos em situação de servidão por dívida.

"Quarenta por cento dos trabalhadores que possuem contratos ainda sofrem violações de seus direitos. Em geral, eles não sabem nem ler nem escrever, então eles acabam não tendo controle e conhecimento sobre férias e horas extras, por exemplo. Eles apenas assinam os documentos sem saber com o que estão concordando", afirma o presidente do Instituto Observatório Social, Roni Barbosa, no documento.

A equipe de pesquisa também acompanhou algumas fiscalizações trabalhistas do Ministério do Trabalho e Emprego. Em uma delas, foram flagrados dois jovens, de 14 e 15 anos, trabalhando nas plantações.

Outro problema apontado pelo relatório inclui o uso nas lavouras brasileiras de agrotóxicos banidos pela União Europeia. Segundo a pesquisa, não são raros os problemas de saúde relatados por trabalhadores constantemente expostos ao veneno.

Procuradas pela Danwatch, as empresas não negam as denúncias. O relatório afirma que “ambas as empresas admitem que o café vindo de plantações onde foram encontradas situações análogas à escravidão podem terminado em seus produtos. A Nestlé também admite ter adquirido café de duas plantações onde autoridades brasileiras libertaram trabalhadores de situações análogas à escravidão em julho de 2015”.

:: Acesse a íntegra do relatório (em inglês) 

 

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Crédito da Foto: 
Danwatch/Reprodução
Data e hora: 
09/03/2016 16:15 2016